Segundo dados de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 23,59% dos domicílios do Amazonas são atendidos por rede coletora de esgoto, com descarte de impurezas diretamente na rede hídrica. Mais de 17% da população do Estado reside em casas de palafita, feitas em madeira e sustentadas por esteios, e casas flutuantes, que acompanham os níveis da água, todas duas áreas sujeitas a inundações periódicas, decorrentes do ciclo de cheias e vazantes.
Por conta das mudanças climáticas, nos últimos anos houve a intensificação dos períodos de cheias e vazantes, com a inundação de áreas até então não alagadas. Sem tratamento de efluentes – resíduos de indústrias ou esgotos domésticos urbanos lançados no meio ambiente, ocorre a contaminação dos lençóis freáticos, favorecendo a incidência de doenças relacionadas à falta de saneamento, como a leptospirose, a hepatite “A” e a febre tifóide.
Para amenizar estes efeitos nas comunidades diretamente atingidas pelas mudanças climáticas na região Amazônica, a Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi), de Manaus (AM), desenvolveu uma alternativa para o tratamento de esgoto, que será apresentada no estande da ABIPTI durante a 8ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2011 (SNCT).
O evento acontece em todo o país simultaneamente entre os dias 17 e 23 de outubro, com concentração das atividades no Distrito Federal, no Conjunto Cultural da República, Setor Cultural Sul, S/N – Eixo Monumental. A 8ª SNCT é promovida pelo MCTI e todas as instituições participantes apresentarão projetos de acordo com o tema do evento: “Mudanças Climáticas, Desastres Naturais e Prevenções de Riscos”.
Projeto
Com recursos de aproximadamente R$ 170 mil, provenientes da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), consta no projeto o desenvolvimento de duas unidades de wetlands (protótipos em escala experimental) com a função de pós-tratamento do esgoto oriundo de casas ribeirinhas (palafitas e flutuantes), localizadas no interior do Amazonas.
Os wetlands são verticais e compostos por uma gramínea que tem a função de retirar os nutrientes do esgoto para que sirvam como alimento para o gado localizado na região. A unidade destinada a tratar o esgoto resultante da casa tipo palafita é fixa e fica submersa (alagável) no período das cheias. O wetland que trata o esgoto das casas flutuantes acompanhará os níveis da água.
“O primeiro protótipo foi instalado na comunidade Sagrado Coração de Jesus, em Careiro (AM). O segundo será implantado até o final do ano”, explica a analista de projetos ambientais da Fucapi, Andréa Farias Asmus.
Paralelamente, estão sendo realizadas ações de educação ambiental para a conscientização da comunidade sobre a importância do projeto e da transferência dessa tecnologia. O objetivo, ressalta a analista ambiental, é tornar os moradores aptos a realizar a manutenção e replicação do sistema. De acordo com ela, os resultados da eficiência dos protótipos em escala de laboratório têm sido promissores, mas ainda são preliminares. “Ainda é necessário um período maior de monitoramento para resultados conclusivos. Mas acredito que até o final do ano teremos dados mais consistentes”, espera.
Em Brasília (DF), a Fucapi trará uma maquete, em escala reduzida, representando as unidades de wetland implantadas na comunidade, além de um banner com informações sobre o sistema, resultados preliminares e fotos das unidades em funcionamento.
Efeitos climáticos
Desde que os registros do nível da água no Rio Negro, um dos principais afluentes do Rio Amazonas, tiveram início, em 1903, a maior enchente ocorreu em julho de 2009, com a marca de 29,75 m, ultrapassando o recorde anterior de 29,69 m estabelecido em 1953. Esta enchente ocorreu apenas cinco anos após a intensa seca de 2005, e um ano antes da maior seca registrada, em 2010, na qual o nível atingiu a marca de 13,64 m.
Grandes variações nos níveis dos rios também têm sido observadas, como as ocorridas no Rio Negro durante os anos de 1925-26, 1935-36, 1966-67, 1979-80, 1983 e 1992. Estes períodos coincidiram com a ocorrência de fortes eventos El Niño, fenômeno atmosférico-oceânico caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais no oceano Pacífico Tropical, e que pode afetar o clima regional e global, mudando os padrões de vento a nível mundial, e afetando assim, os regimes de chuva em regiões tropicais e de latitudes médias, o que evidencia a influência deste fenômeno sobre o nível dos rios.
(Cristiane Rosa para o Gestão C&T online)